Numa cidade italiana, uma monumental plateia assiste a um concerto da orquestra de André Rieu. Um número do espetáculo fascina de modo especial esse grande público: o momento em que uma jovem soprano canta O Mio Babbino Caro , da ópera Gianni Schin , de Giacomo Puccini, para muitos considerada a ária mais bonita de todos os tempos. No meio da emocionada plateia, um homem aparentando 75 anos se comove a ponto de ter o rosto molhado por uma torrente de lágrimas.

A jovem soprano é Carmem Monarcha, brasileira, nascida no Pará. Fará 32 anos em agosto próximo e foi recrutada por André Rieu quando se aperfeiçoava no Conservatório de Música de Maastricht, Holanda, terra natal do maestro. Essa ópera de Puccini tem sido desafio para as grandes sopranos, inclusive a maior de todas, que foi Maria Callas. Carmem Monarcha tem sido elogiada pela imprensa na Europa e nos Estados Unidos, mas continua esquecida pela mídia escrita no Brasil e ignorada pela televisão, de modo que é reduzido o número de pessoas que tomam conhecimento do sucesso dela no exterior.

Os brasileiros muitas vezes não reconhecem na devida dimensão grandes valores do País. Não obstante um filme produzido no ano 2000, Uma Vida de Paixão , sobre Heitor Villas-Lobo, dirigido por Zelito Viana, com Marcos Palmeira fazendo o grande compositor mais jovem e Antônio Fagundes ele mais velho, o admirável músico não é conhecido hoje dos jovens. A propósito: anos atrás a disciplina de canto orfeônico fazia parte das matérias do ensino fundamental no País. A inclusão foi proposta por Villa-Lobos. Não deveria nunca ter sido excluída.

Maior guitarrista clássico de todos os tempos, o espanhol Andrés Segovia tinha repertório muito selecionado, que incluía Villa-Lobos, a quem admirava muito. E chegou a pedir ao maestro brasileiro que compusesse algumas peças especialmente para ele tocar.

Nos Estados Unidos, há muitos anos uma cantora muito famosa, Joan Baez, inclui músicas de Villa-Lobos na sua agenda de concertos. Ela canta as Bachianas do maestro brasileiro com magia.

Voltando a Andrés Segovia. Ele teve mais de um casamento e um deles foi com a artista brasileira, grande compositora e também grande cantora, Olga Praguer Coelho. Que viveu muito tempo no exterior, voltando, já idosa, à sua origem, Manaus, onde morreu esquecida em 2009, à véspera de completar 99 anos.

Na diplomacia, mais um exemplo: o embaixador João Clemente Baena Soares, paraense também como a jovem soprano Carmem Monarcha, é muito exaltado mundialmente. Foi o único brasileiro a ser secretario-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), comandando este organismo com notável competência, com elogiado desempenho também em cargos da Organização das Nações Unidas (ONU). Mas seus méritos não são exaltados no Brasil, como deveriam ser, enquanto valores bem menores recebem pompa e glorificação.

Hélio Rocha é colunista do POPULAR