Por.: Professora Magda Carmelita Sarat Oliveira
(Unicentro)
O presente trabalho baseia-se num relatório preparado a partir de uma viagem de caráter “científico” e profissional, que me permitiu apresentar uma comunicação no Congresso de Pedagogia 2001 em Havana - Cuba. Como nos relatórios de viagem escritos desde o século XIX1, ousei me sentir uma “viajante” que vai em busca de novas experiências e possibilidades de trabalho, procurando conhecer a educação infantil, nosso objeto de estudo, pesquisa, paixão e envolvimento.
Uma experiência assim não só é possível, por tratar-se de um viagem a trabalho, mas torna-se uma “viagem” de reflexão acerca da realidade que vivenciamos, despertando o desejo de socializar com os outros o que pudemos apreender num olhar. Entretanto, como escreveu Míriam Moreira Leite, inspirada em Eça de Queirós, “um perigo dos textos de viajantes é esse : basear-se naquele pequenino lado do fato, da ação do homem, da obra, que aparece, num relance, a seu olhar fugidio. Por um gesto, julga um caráter, avalia um povo”(1997:21). Por isso gostaria de me eximir da responsabilidade do julgamento e procurarei apresentar fragmentos desse meu olhar, ainda que panorâmico, mas atento, sobre a realidade cubana.
A educação infantil em Cuba, como a educação em geral, é prioridade nacional. Ambas não estão dissociadas, sendo responsabilidade do Estado. Naturalmente há que lembrar-se que Cuba é um país socialista, de organização política e ideológica baseada na filosofia marxista-leninista. Sendo assim, a responsabilidade é estatal e coletiva. A organização da educação infantil se dá a partir de um trabalho com instituições formais, os chamados “Círculos Infantis” e programas não formais envolvendo a família e a comunidade, entre eles o projeto “Educa a tu hijo”.
Os viajantes foram estrangeiros de diferentes profissões (médicos, professores, naturalistas, pastores protestantes, economista, etc) que estiveram no Brasil e deixaram sua impressão sobre a terra e o povo em diferentes aspectos.
Instituições Formais, ou os chamados “círculos infantis”, são instituições que atendem crianças na faixa de 6 meses a 6 anos (a licença maternidade é de 6 meses a 1 ano). As crianças saem dos círculos infantis para a escola primária. Em Havana há 15 municípios, e para atender existem 418 círculos infantis. As estatísticas mostram que em quarenta anos foram criados 1.107 instituições atendendo 868.121 menores de zero a cinco anos beneficiando assim 136.000 mães. Segundo dados da UNESCO, Cuba atende 89,9% de todas as suas crianças em idade de educação infantil, o maior índice dos países latino-americanos.
Nos círculos formais a divisão das crianças por grupos de faixa etária se dá de forma mais marcada nos primeiros anos. Assim, temos uma turma de 6 meses a 3 anos que dividem os mesmos espaços, com exceção dos bebês. As outras turmas são divididas apenas por faixa etária, mas nas atividades estão em conjunto durante todo o tempo.
De acordo com as idades, a média entre os menores até 3 anos é de 6 crianças para cada adulto. Para as demais crianças, nos outros grupos, são dois adultos, uma professora e uma auxiliar pedagógica por turma de média de 25 crianças. A instituição é administrada por um conselho em que participam direção, administração, representante dos pais, representante da comunidade, e também uma médica e duas enfermeiras, que trabalham diariamente na instituição atendendo as crianças, adultos e a comunidade.
Com relação ao trabalho metodológico, é fundamentado numa proposta de educação estabelecida de acordo com um modelo de desenvolvimento para a criança cubana. Nesse trabalho é feito um acompanhamento desde o berçário até a saída da criança para a escola primária. O referencial teórico enfatizado é a psicologia soviética com seus representantes clássicos (Vigotsky, Luria, Leontiev) e os contemporâneos. Interessante perceber a ênfase em um trabalho associando teoria e prática. Essa perspectiva é possível nas atividades desenvolvidas pelas crianças, em que o programa tem um caráter político-ideológico que enfatiza, em seu currículo, atividades voltadas para o desenvolvimento integral da criança, o desenvolvimento da linguagem e da expressão, a valorização de conteúdos de caráter sócio-moral, a formação para o trabalho, os conhecimentos de matemática, a aquisição de hábitos, a educação ambiental, a educação sexual e a filosofia política.
As atividades são desenvolvidas pelas crianças em conjunto. Nessas ocasiões os grupos se interagem, encontrando-se num mesmo espaço físico que permite às crianças encontros entre as diferentes faixas etárias. Desse modo, a criança vai vivenciando os princípios de interação e aprendendo com o estímulo das zonas de desenvolvimento potencial e proximal pesquisadas por Vigotsky, na interação adulto-criança e criança-criança. As atividades acontecem prioritariamente fora da sala de aula, em espaços abertos, ao ar livre, e as salas são utilizadas para atividades como o descanso.
Instituições não formais foi outra experiência percebida por esse olhar curioso e atento. Assim, fizemos uma visita ao trabalho não formal que funciona a partir do projeto “Educa a tu hijo”.
A realidade mostrou que nem todas as crianças têm acesso aos círculos infantis.
Para atender a demanda do número de crianças, foi criado esse programa, envolvendo a comunidade e que funciona com a mesma proposta dos círculos infantis, incluindo-se programa, horário. Tal programa permite às crianças as mesmas oportunidades no momento em que chegarem à escola primária. Uma das ênfases do currículo da educação infantil é preparar para a escola primária.
No distrito de Lalissa, que seria parte do município de Havana, há 96 escolas não formais, além de 15 círculos infantis que atendem as crianças dessa região. Periodicamente são promovidas atividades entre as crianças das escolas formais e projetos não formais para que as mesmas possam trocar experiências e informações, fazendo com que o trabalho seja integrado entre professoras2 e crianças.
O programa “Educa a tu hijo” funciona organizado pela comunidade num local adequado e escolhido pela mesma. As crianças o freqüentam duas vezes por semana, durante duas horas, em que, junto com os adultos responsáveis por elas (geralmente a mãe que não trabalha ou a avó), desenvolvem atividades que seguem a proposta cubana de educação infantil. Essa proposta contempla conteúdos de desenvolvimento integral. A referência ao trabalho feminino também faz parte da realidade cubana, quase não há homens envolvidos diretamente na educação infantil. A presença masculina se dá na figura do “chefe” do bairro que participa dos conselhos que dirigem as instituições. A linguagem e expressão, patriotismo, cidadania, sócio-moral, formação para o trabalho, conhecimentos matemáticos, aquisição de hábitos, educação ambiental, educação sexual e filosofia política.
A metodologia de trabalho funciona da seguinte forma: num primeiro momento os adultos recebem orientação de uma equipe profissional (a pedagoga, a médica, a metodóloga, que também é pedagoga e faz o papel da supervisora), além de propostas de atividades para desenvolver com a criança em casa. Depois os adultos reúnem-se semanalmente, relatam o que fizeram, discutem sobre os resultados obtidos e o andamento do desenvolvimento da criança. Posteriormente fazem atividades junto co as crianças e recebem orientação para os dias subseqüentes. A pedagoga, que também tem o papel de acompanhar as famílias, vai às casas das crianças para verificar o progresso da proposta. Todas as situações são discutidas pelos adultos responsáveis, e eles recebem uma “cartilha” que orienta o trabalho dos pais. Essa “cartilha” contém orientações sobre o desenvolvimento da criança de 0 a 6 anos. Os pais podem acompanhar e realizar ao final de cada unidade (são 9 cartilhas ao todo) uma avaliação do desempenho da criança.
O trabalho é desenvolvido por uma promotora que seria a pedagoga, a qual se reúne periodicamente com a metodóloga para avaliar o trabalho. As promotoras encontram-se de 15 em 15 dias com as executoras, que são voluntárias, as mães ou avós que junto com as crianças desenvolvem as atividades.
O número de crianças para cada adulto é de 20 a 25, sendo as crianças de 4 a 6 anos, pois é esta idade em que podem freqüentar o programa. As crianças menores são atendidas em casa, já que as orientações e o acompanhamento acontecem desde o nascimento.
No projeto há ainda uma médica que acompanha as crianças fazendo também visitas às casas para verificar o seu desenvolvimento. Essa alternativa propõe que todas as crianças tenham acesso à educação infantil e de uma forma ou de outra sejam atendidas. Posteriormente a proposta é que sigam a escolarização em condições iguais.
Ênfases da Educação Infantil
O currículo da educação infantil tem uma proposta sócio-histórica, fundamentada na psicologia soviética e na filosofia marxista. As crianças aprendem conteúdos chamados “Valores”, em que são enfatizados a família, o patriotismo, a história do país, a história dos heróis cubanos e o socialismo. Um dos livros mais utilizados pela educação infantil é La edad de oro de José Martí, herói da independência cubana. Trata-se de uma coletânea de contos para as crianças de conteúdo sócio-moral e patriótico, como podemos ler na sua introdução: “Para los niños esse periódico, y para las niñas, por supuesto... El niño há de trabajar, de andar, de estudiar, de ser fuerte, de ser hermoso... Las niñas debem saber lo mismo que los niños para poder hablar com ellos como amigos cuando vayan creciendo”... (MARTÍ, 1994:1, 2).
Profissionais na Educação Infantil
Os profissionais para a educação infantil têm formação em cursos de Pedagogia, que os habilitam para trabalhar com todas as crianças de 0 a 6 anos. O currículo dos cursos prioriza a filosofia marxista-leninista, a história do país, desde os aborígenes até as lutas sociais. A formação pedagógica trata dos clássicos da pedagogia, enfatizando a leitura dos clássicos soviéticos em psicologia, além da história da educação cubana. Nesse caso, José Martí é o centro, ainda conteúdos de arte, música, expressão corporal e cultura geral.
Todos os profissionais que estão atuando têm concluído curso superior ou curso médio, sendo que os auxiliares pedagógicos que só têm curso médio são encaminhados para a licenciatura em Pedagogia. Existe um programa de curso para formação da liderança dos círculos formais, ou seja, a diretora, que geralmente é escolhida dentro do grupo de profissionais por sua aptidão, formação, projetos desenvolvidos e experiência.
Conclusões
A despeito de qualquer olhar que, segundo a nossa formação, nos permita ver o mundo, essa apresentação transcorreu como possibilidade de uma contribuição para que possamos refletir sobre a nossa educação infantil, não importando modelos, mas construindo a nossa identidade a partir das nossas necessidades. Para não incorrermos em julgamentos é bom lembrarmos textos como o de Norbert Elias que nos diz: “(...) quando se julgam pessoas de outros períodos ou sociedades, há a tendência para começar com os valores que são importantes no tempo de quem julga, selecionando-se fatos relevantes à luz desses valores. Essa abordagem impede o acesso ao contexto especial das pessoas que se procura entender. (ELIAS, apud CASEY, 1989:13).
Referências bibliográficas
CASEY, James. A História da Família. Trad. Sérgio Bath. São Paulo: Ática, 1992.
FREITAS, Marcos Cezar de (org). História social da infância no Brasil. São Paulo,
Cortez, 1997.
MARTÍ, José. La edad de oro. Havana: Editorial Pueblo y Educación. 1994
MINISTÉRIO DE EDUCACIÓN, Educa a tu hijo. Programa para la familia dirigido
al desarrollo integral del niño. Vol 1 a 9. Havana: Editorial Pueblo y Educación.
1992.
MOREIRA LEITE, Míriam. L. A infância no século XIX segundo memórias e livros de
viagem. In: FREITAS, Marcos César de (org.). História social da infância no Brasil.
São Paulo: Cortez, 1997.
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