Alunos e profissionais de RI da América Latina discutem segurança,
economia e democracia na FAAP
De 30 de outubro a 2 de novembro de 2009 foi realizado no campus principal da FAAP, em São Paulo, o XV Encuentro de Estudiantes y Graduados en Relaciones Internacionales del Conosur – XV Conosur, uma realização da Federação Nacional de Estudantes de Relações Internacionais (FENERI), com apoio da Diretoria da Faculdade de Economia da FAAP.
A atual Diretoria da FENERI é constituída de alunos do curso de Relações Internacionais (RI) da FAAP, com mandato até outubro de 2010, quando haverá eleição da nova Diretoria.
Extrapolando a expectativa da comissão organizadora, o XV Conosur teve a participação de xxx inscritos de 12 diferentes países: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Estados Unidos, México, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela, além do Brasil.
A Cerimônia de Abertura do XV Conosur teve a presença do diretor da Faculdade de Economia da FAAP, embaixador Rubens Ricupero, do vice-diretor, professor Luiz Alberto Machado, do secretário municipal de Relações Internacionais, Alfredo Cotait Neto, e da secretária-geral do XV Conosur, Juliana Baeza Burali.
Imediatamente após, ocorreu a primeira conferência magistral, com a participação dos embaixadores Rubens Ricupero e Marcos Azambuja que trataram do tema da islamização da agenda internacional, num painel que teve como mediador o diretor da editora Paz e Terra, Marcos Gasparian. O tema do painel e seus painelistas foram escolhidos em função do último número da revista Política Externa, lançada na ocasião. Nela, o embaixador Ricupero tem publicado o artigo A islamização da agenda, enquanto o embaixador Azambuja tem publicado o artigo As eleições no Irã.
A programação do XV Conosur teve a segurança como tema central do primeiro dia; a economia como tema central do segundo dia; e, do terceiro dia, a política.
Dia 2 de novembro – Democracia
O terceiro e último dia do Conosur foi aberto, na parte da manhã, com o grupo de discussão Las relaciones civiles y militares: los riesgos de intervención, que teve como moderador o professor Marcus Vinicius de Freitas. Conduzindo o debate de forma dinâmica, interativa e bem-humorada, e tendo em vista a realidade que se vive na América Latina, com ênfase na questão da democracia, no fenômeno Chávez e no caso de Zelaya, o moderador decidiu propor cinco questões para nortear o debate:
1. A democracia está consolidada em seu país? Qual é o conceito?
2. Qual o rol de percepção das Forças Armadas?
3. Temos uma percepção de corrida armamentista na região?
4. Qual o custo de Chávez na região?
5. O que representa o caso Zelaya?
A escolha das questões pelo moderador mostrou-se bastante acertada, uma vez que a participação foi intensa e os debates acirrados, sendo interrompidos apenas pela necessidade de um intervalo antes do início da programação da tarde.
A programação da parte da tarde começou com dois painéis temáticos: o primeiro, Democracia en América Latina, actualidades y perspectivas, teve a exposição do embaixador João Clemente Baena Soares e os comentários do embaixador Rubens Ricupero; o segundo, Uso político de la inclusión social en América Latina y surgimiento de nuevos lideres, contou com as exposições do ex-ministro de Comércio Exterior da Bolívia, Luis Fernando Peredo Rojas, e do presidente da xxxx (CAS&A), Carlos Salazar Vargas, tendo por mediador o professor Oswaldo Martins Estanislau do Amaral, do curso de Relações Internacionais da FAAP.
Num tom agradável e bem-humorado, o embaixador Baena Soares iniciou seu discurso sobre a democracia dizendo que diferentemente de certos assuntos que são atuais por curtas frações de tempo, este é atual em toda a história. Ademais, considera que vivemos um momento favorável para a democracia em termos de andamento político e de direitos humanos. A questão da democracia, contudo, traz, segundo ele, novidades e desafios, que devem ser encarados de maneira inovadora. Neste quadro democrático, portanto, há algumas ameaças que durante a apresentação ganham destaque, entre os quais o instituto da reeleição, que, no entender de Baena Soares, não deve ser mantida, pois é em torno dela que têm surgido os focos de maior tensão para a manutenção da democracia na América do Sul, como se observa na Venezuela, no Brasil e, mais recentemente, na Colômbia.
Na sequência, Baena Soares examinou outras situações delicadas existentes na América Latina, destacando a crise de Honduras provocada pela deposição do presidente Zelaya, a situação de Cuba e o chamado bolivarianismo protagonizado pelos presidentes Chávez, da Venezuela, Morales, da Bolívia, e Correia, do Equador. Ponderando, de um lado, que a consolidação da democracia repousa num conjunto de valores éticos que despertam esperança e satisfação de necessidades básicas e, de outro, que a corrupção e a pobreza causam desencanto, frustração e põem em risco ao avanços conquistados na região, Baena Soares deixou claro que os textos jurídicos, os arranjos políticos e os organismos internacionais pouco vão adiantar se a ordem democrática não receber o apoio do povo da América Latina. É o povo que cria as condições, a base social da democracia. Isso é uma questão ainda não resolvida nos países latino-americanos. Nesse sentido, dois pilares são fundamentais: respeito e tolerância. Sem isso não há democracia possível e a reação internacional, muito distinta de anos atrás, cada vez mais mostra que o esforço coletivo para proteção tem que ser canalizado para os organismos internacionais. Baena Soares concluiu afirmando que a questão da democracia é central nos nossos países. Não há um roteiro de democracia a ser imposto. Ela segue um movimento pendular. Estamos no pólo democrático agora e temos que trabalhar para manter o pêndulo onde está.
Com a palavra, o embaixador Rubens Ricupero iniciou suas considerações fazendo menção à famosa afirmação de Winston Churchill, segundo a qual “a democracia é o pior de todos os sistemas, com exceção de todos os que foram tentados depois”. Portanto, a democracia está longe de configurar-se como um sistema perfeito, mas frente às demais alternativas, permanece sendo a melhor. Depois de fazer uma série de considerações sobre o provável impacto da crise na região, lembrando que em situações como essa há sempre necessidade de um período para que a situação volte a ser como era antes do início da crise, bem como de reafirmar a necessidade urgente de avançarmos na luta contra a pobreza e a desigualdade, Ricupero concluiu sua fala corroborando as colocações do embaixador Baena Soares e alertando para o fato de que mais do que o predomínio do desejo da maioria, o que faz da democracia um sistema superior a qualquer outro é o respeito ao direito das minorias expressarem seus desejos e suas idéias, “única forma de garantir a possibilidade de alternância no poder, talvez o maior esteio da democracia”.
O último painel temático do XV Conosur começou com a exposição do ex-ministro de comércio exterior da Bolívia, Luis Fernando Peredo Rojas. De acordo com sua concepção, está claro que para vislumbrar novos horizontes a região deve organizar-se no sentido de promover uma resignificação do que é o Estado latino-americano. Em outras palavras, está-se falando da refundação dos Estados. Assim, de acordo com o palestrante, não é possível entender a realidade atual do continente, inclusive os polêmicos casos de Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua, se não nos ativermos ao fato de que está surgindo um modelo novo de Estado, um novo modelo de governo, que vai repercutir na sociedade civil, no setor privado e, evidentemente, na sociedade política. Deste modo, deem o nome que se der, podendo-se até mesmo falar em “novo socialismo”, o que interessa é que estamos falando de uma proposta completamente inovadora. Apenas através de uma profunda analise sobre a natureza do Estado é que será possível compreender as novas lideranças da região. Nesse sentido, porém, Peredo reitera que embora a teoria social possua diversas vertentes, nenhuma delas é capaz de dar conta de explicar o que é o Estado latino-americano. Isso porque, segundo ele, a região compreende algumas peculiaridades, expressas especialmente através de três demandas principais: 1) de autonomia; 2) de inclusão (que é o pretexto pelo qual os novos governos com discurso refundacionista nascem); e 3) da interculturalidade. Assim, dando prosseguimento, Peredo considera que se vive um período de radicalização de imaginários: por um lado difundiu-se a noção de que “não há o que fazer”, situação em que, entre outros fatores o Estado é tido como fonte do problema: identidades, compromissos e tradições preexistentes, hegemonia nacional, essencialismo étnico e social estão relacionados. Em contrapartida, simultaneamente verifica-se a máxima: “tudo precisa ser feito”. Portanto, o que inevitavelmente se constata é que existe um imenso campo de ação entre estas duas esferas mencionadas, e é neste espaço que existem diversas possibilidades. O Estado latino-americano está em um processo contínuo de construção. “Levamos anos e continuaremos trabalhando nisso. Construir um Estado que acompanhe o ritmo da inclusão social é não apenas fundamental, mas um desafio”.
Peredo finalizou sua exposição lembrando de uma afirmação de Mark Moore, segundo a qual na América Latina tem-se o péssimo costume de fazer política pública para tudo e para nada. As políticas só duram enquanto duram os governos. “Para que elas sejam perenes, sustentáveis”, conclui, “devem contemplar ao menos três condições: a dimensão substantiva, a dimensão operativa e a dimensão política”.
Aproveitando o cenário traçado até então, Carlos Salazar Vargas iniciou suas considerações evidenciando a natureza transformadora do mundo atual, especialmente em termos políticos. Para ilustrar essa posição, alertou para a emergência de lideranças tradicionalmente consideradas minorias na América: um sindicalista (Brasil), um negro (EUA), um indígena (Bolívia), um bispo (Paraguai) e um ex-guerrilheiro (Uruguai), por exemplo. Acompanhando a emergência dessas novas formas de liderança, devem necessariamente vinculadas propostas de políticas públicas pautadas pela inclusão, pela geração de oportunidades e pelo viés empreendedor. Nesse sentido ele questionou, ao longo de toda a sua exposição, sobre onde estaria a proposta latino-americana nesse âmbito.
Em seguida, o palestrante dedicou-se a realizar alguns esclarecimentos conceituais, especialmente atrelando a política ao ato de promover políticas públicas e de realizar atividades em prol de terceiros, entendidas estas como uma forma pela qual o Estado se comunica com sua respectiva sociedade. Neste sentido, a contrapartida ideal, de acordo com essa ótica, seria de que uma sociedade caminha positivamente a partir do momento em que os povos passam a votar menos por pessoas e mais por programas.
Para finalizar suas considerações, Salazar difundiu um conceito expresso em um de seus livros recém publicados, o conceito daquilo que denomina “politing”, que, em termos práticos, representa a interconectividade entre o marketing e a política: ele seria um caminho interessante rumo a efetividade na implementação de políticas públicas, tanto do ponto de vista da eficiência quanto da eficácia.
A palestra de encerramento do XV Conosur foi proferida por Abraham Lowenthal, professor de Relações Internacionais da University of Southern Califórnia e considerado, nos Estados Unidos, um dos maiores especialistas sobre questões relativas à América Latina.
Lowenthal lembrou, inicialmente, que sua palestra no XV Conosur ocorria um dia antes do aniversário de um ano da eleição do presidente Barack Obama, sendo, portanto, “um dia significativo para debater o relacionamento entre os Estados Unidos e a América Latina”.
"O certo é que há um ano, poucas pessoas estavam dispostas a acreditar que o governo Obama iria prestar muita atenção às relações com os governos da América do Sul e do Caribe", frente aos assustadores desafios que o esperavam, como a mais grave crise financeira desde os anos 1930, além dos problemas herdados do governo anterior, como duas guerras, terrorismo, a reforma do sistema de saúde, e difíceis situações em política externa que envolviam Coréia do Norte, Oriente Médio, e outros temas. "Mas nos primeiros meses de seu governo, acredito que nós nos surpreendemos", disse Lowenthal. "Eu fiquei surpreso, devo confessar. Logo de início o presidente participou da Cúpula das Américas em Trinidad Tobago, em abril, dialogando com os representantes de 34 países da região, e, em seguida, visitou o México”, lembrou Lowenthal.
Segundo ele, os preparativos para tais eventos deixaram entrever qual era a nova abordagem do governo americano em relação à América Latina e Caribe. Embora a participação em reuniões como a Cúpula ocorram por constarem da agenda do presidente, Lowenthal duvida que essa seja a única explicação. A percepção que ficou foi a da importância dada à região, da disposição dos novos integrantes do governo em relação à política para o hemisfério. Apesar dos grandes problemas existentes entre os Estados Unidos e o México, inclusive na política interna, como a questão de fronteiras, migração, combate às drogas, "que não serão ignorados pelo governo", há questões mais amplas, referentes à política externa em geral para a América do Sul e Caribe, que foram levadas em consideração pelo novo governo, disse ele.
Lowenthal vê com grande otimismo a ampliação desse relacionamento. Mesmo no que se refere à ameaça de protecionismo, uma vez que no front interno o governo Obama enfrenta fortes pressões de grupos interessados em preservar empregos. Mesmo que o país tenha saído tecnicamente da recessão, ao registrar crescimento de 3,5% no PIB, entre julho e setembro, os Estados Unidos não conseguem controlar o aumento do desemprego, que se aproxima dos 10%.
"Sou otimista de que a recuperação vai prosseguir", disse Lowenthal, apesar de admitir que não se pode excluir a ameaça do protecionismo, caso isso não ocorra. Sobre Obama, disse acreditar que seu governo tem mais espaço de manobra que seus antecessores no estabelecimento de uma política externa que inclua a América Latina e o Caribe, embora muito dependa da recuperação da economia americana. Mas temos muitos interesses em comum: "energia, segurança, aquecimento global, comércio”. A nova administração, segundo Lowenthal, tem interesse em buscar um relacionamento próximo com os países da região, em particular com o Brasil, pois "partilhamos metas".
Concluindo, Lowenthal afirmou que, em sua opinião, há uma nova realidade, e o governo percebeu isso: os países da região não mais se voltam para os Estados Unidos, como anteriormente, em busca de uma liderança, mas sim em busca de maior cooperação.
Juliana Baeza, secretária-geral do XV Conosur, sem esconder sua alegria pelo sucesso do evento, declarou: “A FAAP colocou o Conosur no mapa da América Latina. Este foi o Conosur mais democrático da história, pois nas edições anteriores os participantes se concentravam apenas entre Brasil, Argentina e Uruguai”.
Fotos:
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Marcus Vinicius de Freitas, professor do curso de RI da FAAP, engenheira Alia Rached, do Centro Nacional de Referência em Biomassa, e Luiz Alberto Machado, vice-diretor da Faculdade de Economia, ao final do painel Protección de recursos minerales, naturales y seguridad energética.
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Flagrante da exposição do embaixador Synésio Sampaio Goes Filho, no painelConflictos regionales en América del Sur y la historia de la formación de la frontera. Ao centro, Gunther Rudzit, coordenador do curso de RI da FAAP, e à esquerda, Claudio Passos Calaza, tenente coronal da Aeronáutica.
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O ex-presidente da Colômbia e ex-secretário geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Cesar Gaviria, brindou a plateia com uma excelente palestra.
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A secretária-geral do XV Conosur, Juliana Baeza, entrega uma corbeille ao presidente Cesar Gaviria após sua brilhante palestra.
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Embaixador Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia, Juliana Baeza, secretária-geral do XV Conosur e senadora Marina Silva, momentos antes de sua conferência.
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Flagrante da conferência da senadora Marina Silva sobre a questão ambiental e o aquecimento climático.
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Depois de acompanhar atentamente, o público presente aplaudiu calorosamente a senadora Marina Silva.
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Bernardo Kosacoff, diretor do escritório argentino da Cepal, José Maria Rodriguez Ramos, coordenador do curso de Economia da FAAP, e embaixador Salvador Arriola, cônsul geral do México em São Paulo no painel La dimensión humana de la crisis: impactos de la integración regional y subregional.
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Painel Uso político de la inclusión social de América Latina y surgimiento de nuevos líderes, com a participação do ex-ministro de Comércio Exterior da Bolívia, Luis Fernando Peredo Rojas (à direita) e do consultor Carlos Salazar Vargas (à esquerda), com a mediação do professor Oswaldo Martins Estanislau do Amaral (ao centro).
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Embaixador José Botafogo Gonçalves, na conferência magna sobre integração regional, ladeado por seus colegas Rubens Ricupero e Sergio Amaral.
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Fonte: http://www.faap.br/faculdades/economia/ciencias_economicas/xv_conosur.asp
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