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29/03/2011 às 13:57:07

Bem Vindo a Barbados!



O paraíso existe, e é habitado por negros

por Elaine P. Rocha*

Praias paradisíacas e clima quente o ano inteiro fazem da ilha um roteiro turístico inesquecível

 

 

 

Fotos Elaine P. Rocha

" Um dia chuvoso em Barbados é muito melhor do que muitas semanas de sol em qualquer outro lugar do mundo!" Este é um dos comentários mais comuns entre os guias turísticos que circulam a ilha trazendo grupos de visitantes estrangeiros. Quando ouvi isso pela primeira vez, sorri sem muita convicção, mas hoje, mais de três anos vivendo nessa pequena ilha, essa frase acabou virando o meu mote diário.

Desde o século 19, Barbados é chamada de "Little England" (Pequena Inglaterra), porque a cultura inglesa prevaleceu nessa sociedade que segue muito de perto as normas da Grã-Bretanha: o idioma, o sistema educacional, a organização política - Barbados tem o mais antigo Parlamento deste continente -, a predominância da religião anglicana, e a preferência por esportes como o jogo de polo, o cricket e as corridas de cavalo, além do gosto pelo chá e um comportamento típico que denota o orgulho britânico em cada cidadão barbadense.

"A HERANÇA DA ESCRAVIDÃO EM BARBADOS ESTÁ NA CULINÁRIA E NO FESTIVAL DA COLHEITA, O CROP OVER, ESPÉCIE DE CARNAVAL CELEBRADO ATÉ HOJE NA PRIMEIRA SEMANA DE AGOSTO E QUE, A PRINCÍPIO MARCAVA O FIM DO TRABALHO DURO DA COLHEITA DE CANA DEAÇÚCAR E FESTEJAVA O INÍCIO DE UM PERÍODO DE FARTURA, COM BOA COMIDA E DEPOIS DA ESCRAVIDÃO ALGUM DINHEIRO NO BOLSO"

Com 34 km de comprimento e 23 km de largura, Barbados não é maior do que a ilha de Florianópolis, em Santa Catarina; mas entre as mais de 7 mil ilhas que compõem o Caribe, é considerado um país de porte médio. A ilha não tem rios ou lagos naturais, nenhuma montanha ou área florestal, não possui nenhuma fonte de energia, a pecuária é praticamente inexistente e a agricultura, que no passado se compunha de plantações de canadeaçúcar, hoje não é suficiente nem para abastecer 25% do mercado local. Ainda assim, Barbados se encontra entre os países classificados como desenvolvidos, entre os 60 mais ricos do mundo, o terceiro mais desenvolvido do continente. Nada mal para uma ilha que acaba de celebrar 46 anos de independência.

EDUCAÇÃO DE ALTÍSSIMA QUALIDADE

 

Foto Uwi, Cave Hill / divulgação
Grupo de estudantes do departamento de Administração de Empresas. O clima de descontração da universidade não descarta a seriedade acadêmica: a UWI já produziu dois premios nobel, em economia e literatura

Sem recursos naturais, além da beleza das praias, a riqueza de Barbados foi construída através de um massivo investimento na educação. A população, de aproximadamente 285 mil habitantes, é composta de mais de 96% de negros e afrodescendentes que, em sua maioria, foram trazidos para Barbados como escravos entre os séculos 17 e 18 para trabalhar nos canaviais e moinhos. Em 1816, a ilha viveu um dos maiores levantes de escravos da história moderna: mais de 20 mil homens e mulheres se rebelaram contra as condições de trabalho, obrigando a coroa britânica a rever o sistema escravagista.

Em 1834 foi abolida a escravidão, porém, as propriedades e o poder político continuaram nas mãos da elite. Aos poucos, as famílias passaram a investir na educação dos filhos como único meio de superar a extrema pobreza. A igreja anglicana teve um papel decisivo neste desenvolvimento. Logo após a abolição da escravidão, o bispo anglicano Hart Coleridge tomou a iniciativa de construir igrejas acopladas a escolas por toda a ilha, ampliando a oferta de vagas e oferecendo um ensino com a mesma qualidade do oferecido na Inglaterra.

A grande mudança só veio mesmo a partir de 1920, quando os negros barbadenses se organizaram politicamente e iniciaram um movimento duradouro por direitos políticos que ao final se traduziu em conquistas sociais e econômicas. Aos poucos, o números de negros no parlamento foi crescendo e, em 1958, elegeram o primeiro premier negro, Sir Grantley Adams, advogado que defendia reformas sociais e políticas. Seu successor, Errol Barrow, foi mais além e reformou o sistema de ensino, propiciando educação gratuita do fundamental I e II e o ensino médio, além do fornecimento de merenda escolar para todos os barbadenses, no início dos anos 60. Esta foi, segundo a maioria absoluta da população, a grande revolução de Barbados. A partir de então, o item número um nas exportações desta pequena ilha são seus profissionais excepcionalmente bem preparados, que seguem para ocupar postos em empresas e governos pelo mundo afora. É bom frisar que, para os barbadenses, a educação gratuita vai até o doutorado. 

"DORMIMOS COM AS JANELAS ABERTAS"

 

Foto Elaine P. Rocha
Professor OchiengOdhiambol

Os barbadenses se orgulham do fato de que o país está entre os cinco com maior índice de alfabetização do mundo, a taxa de analfabetismo é de menos de 1%. A educação é obrigatória a todos os menores de 16 anos, e a sociedade controla isso. São 70 escolas primárias e 23 escolas secundárias públicas. A educação primária se inicia aos três anos de idade, dando aos pais o conforto de deixar seus filhos em segurança enquanto estão no trabalho.

O campus universitário de Cave Hill, criado em 1962, como parte da University of the West Indies, abriga hoje mais de 8.500 estudantes e reúne professores locais e estrangeiros vindos de países como Nigéria, Inglaterra, Argélia, Canadá, Quênia, Espanha, França, e até Brasil, que contribuem para ampliar a visão de mundo dos estudantes.

 

Foto Anthony Fisher
A estudante Melissa Garnett, de Saint Kits

Um deles é Ochieng-Odhiambo, de origem queniana, professor de filosofia africana para graduação e pós-graduação, que chegou a Barbados há oito anos. "Quando eu vim para cá, filosofia africana não era uma disciplina muito respeitada na Inglaterra e em muitos países desenvolvidos, mas as pessoas desta universidade estavam muito entusiasmadas em receber informações sobre a África, e foram muito receptivos a essa nova abordagem da filosofia", explica. Hoje ele é o chefe de departamento de História e Filosofia e diz que nenhum de seus seis filhos pensa em voltar para o Quenia.

"Aqui a educação é de qualidade e gratuita, tenho três dos meus filhos já cursando a pós-graduação e nunca tive que pagar um tostão. Vindos de Nairobi, a maior capital do leste africano, encontramos aqui paz, tranquilidade e segurança. Isso aqui é o paraíso, dormimos com as janelas abertas e ninguém se preocupa em trancar o carro." Além da universidade, Barbados tem ainda um instituto politécnico e um colégio comunitário de ensino superior, que recebem estudantes vindos de outras ilhas caribenhas e de alguns países vizinhos, como a Venezuela e Colômbia.

DOIS CLIMAS: QUENTE E MAIS QUENTE!

Com um nível de desemprego abaixo de 10%, Barbados é um dos países com menor índice de desigualdade e uma criminalidade muito baixa. Estas condições fazem com que muitos barbadenses que hoje vivem fora do país mandem seus filhos adolescentes de volta para serem educados por avós ou tios na ilha, que oferece segurança e melhor nível de educação. "Aqui é muito seguro. Você pode caminhar por qualquer rua, pedir ajuda e as pessoas te dão as informações necessárias, às vezes, até saem de sua própria rota para te ajudar. Temos ainda muito respeito pelos mais velhos, e uma religiosidade que controla as ações do dia a dia. Pode-se ir à praia a qualquer hora do dia ou da noite e relaxar. Em Barbados ninguém nunca está a mais de 15 minutos de uma boa praia", afirma o doutor Armand Harper, clínico-geral e médico da seleção nacional de cricket.

O governo também garante a eficácia do sistema de saúde e a população pode contar com hospitais e clínicas de atendimento, incluindo remédios gratuitos para doenças crônicas. O resultado disso é que a ilha se tornou conhecida por sua população centenária. A expectativa de vida em Barbados é oficialmente de 72 anos para homens e 77 anos para mulheres, no entanto, a cada domingo, o jornal local traz as fotos de um ou mais moradores comemorando seu centenário.

Se você se empolgou com todo esse desenvolvimento e estabilidade, some isso a um verão praticamente interminável. Uma amiga, outro dia, anunciou ao pai que preocupado, queria saber qual era o clima em Barbados: "Pai, aqui só tem dois tipos de clima: quente e mais quente." Junte ainda as belas praias de areia branquinha e um mar de águas azul-esverdeadas, muito calmas e mornas. Alguns coqueiros, uma brisa leve, sanduíche de peixe-voador e uma boa cerveja gelada. Pronto! Você chegou ao paraíso. Pode relaxar, porque você está em Barbados.

"A POPULAÇÃO, DE APROXIMADAMENTE 285 MIL HABITANTES, É COMPOSTA DE MAIS DE 96% DE NEGROS E AFRODESCENDENTES"

 

Foto Anthony Fisher
Uma cena do cotidiano: jogo de cricket em frente aos dormitórios da universidade em Cave Hill

 Barbados é bom destino para estudar e fazer turismo ao mesmo tempo. São apenas seis horas de viagem de São Paulo a Bridgetown, em vôos diretos pela Gol, e não é necessario visto para brasileiros. Para aqueles que vão para estudar, a University of the West Indies se encarrega do visto. Além dos cursos regulares, a UWI abriu cursos especiais de inglês com cursos mais especializados para profisssionais de medicina e administração e atualização para professores. E é bom lembrar que inglês é o único idioma da ilha.

 Para mais informações acesse www.cavehill.uwi.edu ou escreva para internationaloffice@cavehill.uwi.edu

Elaine P. Rocha é doutora em História Social e professora da University of the West Indies em Barbados                                                                             

Fonte: http://racabrasil.uol.com.br/cultura-gente/152/artigo211101-2.asp                                                                                                                                                                                                               

 

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